Para quem nós marchamos?

Fábio Cavalcante*

Marcha para Jesus 2011, em Boa Vista (RR): momento em cada um, marcha pelo que acha conveniente

Em dias como os de hoje, vivemos em uma fase de auto-afirmação, onde cada pessoa, grupo, segmento social ou religioso busca seu espaço, novos adeptos e uma oportunidade para exercer seu poder e influência. É inegável que, no universo democrático, tal luta seja legítima e que reflete a premissa de que todos são iguais embaixo do céu.

No evento denominado “Marcha para Jesus”, isso fica bem notório. Centenas, milhões ou milhares de pessoas se aglomeram nas praças e nas vias públicas, para momentos solenes de expressão de fé e da afirmação de sua consciência religiosa. E com uso de faixas, cartazes, pinturas nos rostos e palavras de ordem. É legítimo, e a democracia dá fé.

Estive presente em quatro ‘marchas’, sendo nos anos de 2000, 2001, 2009 e agora, em 2011, na cidade de Boa Vista. Fazendo um paralelo entre cada uma dessas manifestações, é certo que muita coisa mudou, desde a forma em que os fiéis se colocam a marchar, desde a forma em que o evento vem sendo organizado.

A idéia da Marcha para Jesus, fundada em 87 em Londres e que se estendeu por todo o mundo, pelo que nos consta, é a de manifestar a fé baseada no evangelho de Jesus Cristo, como forma de ‘impactar o mundo’ com o amor de Deus para com os homens. E para isso, vale momentos de oração em favor da cidade, do estado, da nação, e celebrações por meio da música. E convenhamos, por um tempo, até que tais elementos puderam ser vistos.

Na ‘Marcha’ deste ano, atuei no evento como repórter-fotográfico. Registrei vários momentos, como a expressão nos rostos das pessoas, o comportamento de determinados grupos, o que as igrejas escreveram em seus cartazes, a forma em que alguns se caracterizavam. Foi um olhar mais jornalístico que outra coisa. E foi aí que, comparando com a idéia original da Marcha, percebi que poucos estavam envolvidos da forma conveniente.

Por exemplo: por várias vezes, a multidão parava em um determinado ponto para fazer uma oração específica; pela Câmara Municipal, pela Assembléia Legislativa, pelo Palácio do Governo, Poder Judiciário, hospitais, organizações indígenas, etc. Com minha câmera fotográfica, procurei registrar a expressão de alguém nesses momentos de orações, para enfatizar o propósito do evento.

Mas vocês, caros leitores, não imaginam a dificuldade que tive para ‘garimpar’, em toda aquela multidão, alguém que estivesse orando. Vi gente sorrindo, pulando, conversando, uns adolescentes aos beijos, outros correndo pra lá e pra cá. Estavam absortos em outras coisas, alheios ao que os líderes no trio elétrico oravam ou pregavam.

Tais fatores levam-me a questionar: por quem marchamos? Ou ainda: por que marchar? Por que sair de nossas casas, gastar uma “dinheirama” para padronizar camisas, confeccionar cartazes, comprar tinta para passar no rosto e depois ir às ruas, caminhar por quilômetros em meio a um sol escaldante (no caso de Roraima)? Somente para mostrar o poder dos evangélicos? Poder?! Que poder?

A Marcha para Jesus se tornou apenas um evento para a diversão, para encontrar-se com amigos. E, em alguns casos, tornou-se uma forma de igrejas mostrarem seu poderio (“minha igreja tem mais membros que as suas!”). Há quem diga que também se tornou palanque político. Mas isso é tema para outro artigo…

Convenhamos, há muitas pessoas que querem mostrar Jesus, colocando Ele no centro das atenções. Mas, para mostrar Jesus, será que é necessário somente em um evento como esse? As igrejas não estão, diariamente, apresentando a Palavra de Deus, em seus cultos?

O que aparenta é que as igrejas querem medir forças com outros segmentos sociais, desses que fazem ‘paradas’ pela cidade mostrando sua luta por igualdade de direitos, entre outras coisas. Se for isso, que necessidade a igreja de Cristo tem para tentar se parecer melhor?

Eu acredito que há pessoas comprometidas com a Palavra de Deus, que oram e intercedem para que o país seja um lugar melhor, que o estado seja menos agredido pela corrupção e que a cidade tenha uma educação e saúde dignas. Mas tais pessoas são minorias em meio à multidão de pessoas espalhadas pela Marcha para Jesus.

Então? A quem centramos nossas mentes quando marchamos? Aos nossos pastores? Aos patriarcas? Às nossas células? Ao cantor ou banda que vem de fora para fazer um show? À oportunidade sórdida de azarar o maior número de meninas possíveis? Onde Jesus fica em meio a tudo isso?

Oremos para que, nos anos que seguirem, as próximas marchas sejam, de fato, para Jesus.   

 

* Fábio Cavalcante é jornalista e diretor-geral do Universo Gospel Comunicações. Siga-o no Twitter: @Fabiocbv

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Uma consideração sobre “Para quem nós marchamos?”

  1. Querido Fábio concordo plenamente com seu olhar jornalistico, e como uma futura cientista social(rs) refleti e foi o que me veio na mente a seguinte pergunta ”Seria a pós-modernidade se infiltrando na igreja”?

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