Para José Wellington, a Assembleia de Deus está uma “palhaçada”. Mas de quem é a culpa, afinal?

 José Welligton, presidente nacional da AD, diz que a denominação está cada vez mais parecida com o “mundo”
José Welligton, presidente nacional da AD, diz que a denominação está cada vez mais parecida com o “mundo”

Antes de qualquer coisa, vou logo avisando aos amados irmãos sem escrúpulos que gostam de espalhar boatos infundados: este artigo não vai falar mal da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, atacar os “ungidos do Senhor” ou promover calúnias de qualquer tipo. Leia o texto completo e entenda a proposta, que é simplesmente fazer uma reflexão a respeito do tema.

Em recente reunião convencional, o pastor presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil (CGADB) José Wellington Bezerra apresentou o atual panorama da sua denominação (confira o vídeo abaixo). Com mais de 100 anos de história, contribuições sociais, auxílio espiritual e milhares de almas ganhas para o Reino de Deus, a conclusão é aterradora: a igreja já não é a mesma de 1911, quando Gunnar Vingre e Daniel Berg romperam todo proselitismo e lançaram os alicerces do pentecostalismo no Brasil.

O pastor presidente citou diversos pontos negativos que estão descaracterizando a igreja, tornando-a semelhante ao “mundo”. É importante ressaltar que esse “mundo” a quem o amado pastor se refere pode ser encarado como um eufemismo para “modernidade”, ou seja, o abandono de práticas, usos e costumes que um dia fizeram sentido, mas que hoje se perdem em meio a uma sociedade mais esclarecida. Mas deixemos isso para depois.

O principal “carro-chefe” dessa modernidade, segundo o pastor, é o abandono dos usos e costumes. O que seria isso? Todo mundo sabe do padrão meio que universal defendido pelo Pentecostalismo. Homens com roupa social, terno e gravata e mulheres com longos vestidos ou saias, cabelos compridos (sem a presença de peróxido de amônia), sem qualquer tipo de maquiagem no rosto. E sem joias, adereços, ‘balangandãs’ e afins.

 Anos atrás, uma ‘assembleiana’ se maquiar era motivo até de expulsão
Anos atrás, uma ‘assembleiana’ se maquiar era motivo até de expulsão

Essa característica é quase nula em meio às igrejas atuais. Os homens não abrem mão de cabelos alinhados, sobrancelhas “feitinhas” e cavanhaques (“mais parecem um bode”, diz o pastor).   As mulheres, então…as morenas tornaram-se loiras, as loiras viraram morenas (a la Célia Sakamoto) e as ruivas são cada vez mais raras. Vou nem falar sobre a questão da depilação, que aí já é outro “departamento”…

José Welington condena tais práticas, chamando-as de costumes de “samaritanos”. Na Bíblia, judeus e samaritanos não se ‘bicavam’ quando Jesus veio para quebrar todo tipo de barreira existente entre os que se devotavam a Deus. Uma samaritana recebeu a graça de Deus em um poço. Um samaritano foi curado da lepra e adorou a Deus. Mas nada disso parece fazer sentido para os dias atuais, né? Prosseguindo…

O fervor ‘pentecostal’ diminuiu com o passar do tempo: culpa da modernidade?
O fervor ‘pentecostal’ diminuiu com o passar do tempo: culpa da modernidade?

Bezerra questiona a “frieza” nos cultos. Ou seja, já não há mais “aleluias” e “glórias a Deus”, “renovações”, “mover do Espírito”, “avivamentos”, “batismo com o Espírito Santo”, “línguas estranhas” e outras ações que são a marca fundamental do Pentecostalismo. Isso é meio que tratado como uma afronta aos milhões de evangélicos pentecostais ridicularizados ao longo dos anos, por serem considerados “loucos” aos olhos da sociedade. Para o pastor, o fato de não se pregar mais sobre o “mover” do Espírito Santo (em dias pós- Benny Hinn e Marco Feliciano) é o que torna a igreja Assembleia de Deus numa “palhaçada” (como o próprio denomina).

E ainda tem mais: a Harpa Cristã anda obsoleta. Hoje é só música moderna, palmas, ritmos “animados” e coisas que para o decano do Movimento Pentecostal, se tornam marcas do “paganismo”. Coreografias na igreja são abomináveis. Palmas substituem as “aleluias”. E o bom e velho “sertanejo” é cada vez mais substituído pelo pop britânico (e seus exaustivos e repetitivos versos/ mantras).

Pois bem, o fato de a igreja não pertencer mais ao padrão ‘Daniel Berg de Qualidade’ se deve ao fato de que os fiéis passaram a conhecer seus direitos. Que direito tem um pastor de proibir alguém de ter TV em casa ou jogar futebol com os amigos no campinho? Sim, isso já foi lei no passado, mas hoje não faz sentido algum. Não faz mais sentido proibir que se tenha guitarra e bateria na igreja sob a justificativa de que são instrumentos ‘profanos’ (popularizados pela ‘beatlemania’ dos anos 60).  Até o microfone já foi ‘satanizado’. Mas o ponto não é esse.

Para o pastor, tais práticas têm contribuído para um freio no crescimento da igreja. Fazer parte de uma igreja neopentecostal hoje faz mais sentido que estar numa denominação que se vale de jogar fardos pesados sobre o ‘crente’. Se Deus está em todo lugar e todas as denominações são legitimas, é preferível ir para uma que não me encha de regras, certo? Pois é exatamente isso que está acontecendo com a Assembleia de Deus.

Se a AD não é mais a mesma, se os crentes já não são os mesmos, se os cultos já não são tão avivados como antes, alguém tem culpa no ‘cartório’. E essa culpa recai sobre vários elementos. E teço aqui minhas considerações a respeito, pois é preciso que entendamos que quem faz a igreja são pessoas humanas, não anjos. São pessoas dotadas de senso crítico e que tomam decisões todo o tempo. A culpa não é só do pastor ‘quadrado’, dos irmãos que pintam a cara ou do Manoel Carlos que tira os crentes dos cultos com suas novelas. A culpa é de todos.

Fé e política: tal união tem contribuído para o enfraquecimento da igreja, na opinião de muitos
Fé e política: tal união tem contribuído para o enfraquecimento da igreja, na opinião de muitos

A CULPA É DOS LÍDERES DA DENOMINAÇÃO que enfatizaram a política. Púlpitos se tornaram palanques políticos para católicos, ateus, maçons e até macumbeiros. Ecumenismo passou a ser encarado como sinônimo de “igualdade social”, quando que uma coisa nada tem a ver com a outra. E tal política passou a ser imposta. O voto de “cajado” ganhou força nos últimos anos (“Não vai votar no candidato da igreja? Tá disciplinado!”).

A CULPA É DOS PASTORES que passaram a pregar mais sobre a teologia da prosperidade e outras balelas teológicas que sobre a salvação. E não venham dizer que isso só existe em denominações como IURD ou IMPD. Em uma era pós- Silas Malafaia, muitos abraçaram a ideia de que ser abençoado por Deus está sujeito às cifras que você oferta ou dizima. Existem sim, pastores que pregam a Palavra de Deus, que falam sobre a salvação, que falam do amor de Deus de forma genuína. Não somos loucos para negar isso. Mas estes se perdem em meio a uma geração que fala mais sobre rock que sobre Jesus. Que falam mais sobre a roupa curta da irmã que sobre o perdão de Deus. Que falam mais sobre o dinheiro que sobre a Fé em Deus.

A CULPA É DOS FIÉIS que trocaram a Bíblia pelo Facebook. Que falam menos com Deus em oração e mais com os amigos no Whatsapp. A Culpa é daqueles que deixaram de ir aos cultos para assistir o beijo gay no final da novela. Que abandonaram as atividades na igreja pelas praças, baladas e encontros com a ‘galera’ cidade afora. Tenho dito sempre que não adianta os líderes e pregadores fazerem coisas mirabolantes nos cultos, promover shows ‘pirotécnicos’ ou convocar o Billy Graham para pregar, se a igreja não estiver interessada na Palavra. Não adianta! Hoje é mais fácil dar ouvidos ao que o personagem mequetrefe da novela fala que à voz de Deus.

O pastor Jorge Linhares, em uma de suas pregações, fala sobre o fato de muitos abandonarem a igreja. E entre os motivos, destacam-se as decepções com os líderes, a falta de mensagens inspiradas, a falta de atividades que motivem a permanecer no Evangelho (veja o vídeo). Eu digo que se a pessoa não for conquistada pela Palavra, de nada vai adiantar movimentos, ações acatadas como “avivadas” e “pregashows” (sobre isso, vide este artigo).

A tal teologia da prosperidade roubou o espaço que antes era dado à palavra de salvação
A tal teologia da prosperidade roubou o espaço que antes era dado à palavra de salvação

Acredito que questões como “frieza” seja uma característica geral, não apenas na AD. Jesus já vaticinara a respeito do crescimento da maldade que faria com que muitos se afastassem do Reino (Mateus 24.12). Paulo disse o mesmo, mas dando ênfase no fato de que muitos dariam ouvidos a todo tipo de bobagem que fosse possível (I Tm 4.1). A pergunta que temos que fazer é: qual a nossa condição? Temos buscado a Deus pela Sua Palavra ou porque alguém nos leva a fazer isso? Somos capazes de cuidar de nossa própria fé mesmo que o mundo já tenha abandonado a ideia de que Deus existe?

Concernente a tudo o que foi dito aqui, não creio que o pastor José Wellington tenha se equivocado quando criticou a mudança drástica no comportamento de seus fiéis. Hoje há muitas bobagens teológicas rondando os templos, como sincretismos religiosos e práticas que são facilmente confundidas como ‘mover do Espírito’ e “avivamento”. É preciso ter discernimento para tudo o que é feito e dito.

E repito: isso não é exclusividade da AD. O movimento evangélico padece desse mal. Para resolver isso? Todos nós precisamos rever nossos conceitos sobre o verdadeiro Cristianismo. A Bíblia é mais que um aglomerado de histórias fascinantes. Fazer bom uso dela não faz mal algum. Só precisamos lê-la com frequência e deixar de apenas repetir as mesmas ladainhas que nos são ditas ano após ano. Soli Deo gloria

Por Fábio Cavalcante – Jornalista e diretor-geral do Grupo Universo Gospel Comunicações. E-mail: fabio.cbv@hotmail.com. Siga-o no Twitter: @Fabiocbv

Um comentário

  1. Aquele (papa,apóstolo,bispo,pastor,líder,etc)que não tiver pecado (na administração de igreja,comunidade,etc) que seja o primeiro a atirar a primeira pedra. A Paz do Senhor Jesus para todos

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