A emoção que vem da razão

adoracao5As oportunidades me levaram para o trabalho com o louvor desde uma tenra idade. Tenho uma foto em algum lugar, na qual tenho um belo topete, quase nenhum pelo no rosto, mas já tinha um violão nos braços e uma roda de amigos/irmãos ao redor. Nunca me encantei muito com a música secular. Minhas “ambições” sempre foram aprender “aquele” louvor.

Logo, fui me envolvendo com grupos e, finalmente, sem muito planejamento, juntamos amigos para tocar. Lá se foram vários anos de igreja em igreja e evento em evento.

Digo isso apenas apara ambientar que não estou falando de fora: sou músico envolvido com adoração congregacional e em apresentações há mais de duas décadas. Vi o melhor e o pior. E vi a música cristã virar evangélica e, depois, virar “góshpeu” (me recuso a escrever “Gospel”, pois esta linda palavra em inglês significa o Evangelho santo do nosso Senhor Jesus).

Hoje, precisamos lutar para não cair em dois extremos. Os quais, de certa forma, po-dem ser tirados do texto supracitado.

Primeiro, o ideia distorcida do que seja “adorar no espírito”. Anos atrás, em busca de mais liberdade e significado pessoal, o louvor congregacional passou por adjetivos como “livre”, “espontâneo” e “extravagante”. Sendo que no final, em muitos casos, acabou se tornando “esquisito”. Uma forte influência existencialista com pitadas de pós-modernismo fez um louvor onde o “sentir” estava acima de todas as coisas. Bem como a obrigatoriedade de se aceitar o que quer que as pessoas fizessem. Afinal, era o “mover do Espírito”.

Segundo, a também distorcida ideia oposta de “culto em ordem e decência”. O formalismo se transformou na tradução de espiritualidade. O espectro vai desde a proibição de palmas até mesmo de instrumentos. Claro que há variações mais suaves. Mas, mesmo nelas, as músicas se tornam cada vez mais apenas um tópico, uma parte do culto, pela qual se passa quase batido, sem nenhum efeito sobre nossas vidas.

Repare que, igual à primeira noção, nenhuma das duas estão erradas. A questão é a palavrinha “distorcida”. E os dois extremos estão.

Os erros começam no papel, na ordem e na origem da emoção na adoração. Ela nunca pode vir de arranjos ou tons musicais, nem mesmo de ritmos e manipulações do dirigente. Emoções assim são calorias vazias, sentimentos superficiais, iguais aos gerados pelo entretenimento. Às vezes, até viciantes porque os dependentes precisam de doses regulares e cada vez maiores.

Mas, emoções são erradas, então? Antes de responder, vamos a outra parte onde o erro continua: as letras! O centro da adoração no Antigo Testamento estava nas letras. A prova disso é que, apesar do esmero com os músicos e os instrumentos, Deus preservou as letras dos cânticos no livro de Salmos, mas não preservou as melodias. E, Ele é Deus; Ele poderia se quisesse, não é? Assim, as letras cumpriam o propósito muito mais em relação a quem cantava do que para Quem se cantava. Deus sabe de todas aquelas coisas! Nós, fini-tos humanos, é que precisamos ser lembrados vez após vez que “a Sua fidelidade dura para sempre”.

Mas, as letras perderam seu norte em Deus. Desde o final da década de 50, A. W. Tozer já dizia que as letras estavam se tornando mais a respeito das pessoas, do que a respeito de Deus. E ele se referia às letras de músicas ditas cristãs! Começou uma paulatina mudança do teocentrismo para o antropocentrismo. De ter Deus no centro para ter o Homem no centro. De novo, aquele existencialismo esteve fazendo-se presente.

O ego humano agradeceu. Somos extremamente voláteis ao elogio e ao agrado. E tal não é diferente mesmo quando somos “religiosos”. Músicas que nos elevam pela letra ou mesmo pela música nos agradam e precisamos reconhecer isso. O arrepio e a emoção vazia viciam.

Retornando à emoção, vamos voltar à pergunta. A resposta é não, emoções não são erradas. No Salmo 66.6, o compositor diz que “e ali nos alegramos nele”. Ele se referia à travessia do Mar Vermelho. A emoção vem pela compreensão e testemunho das ações de Deus. Isso pode ser em primeira mão (como no texto) ou apenas a lembrança daquilo que Deus tem feito. O ponto aqui é que a emoção verdadeiramente adoradora vem de constatações que temos pelo Espírito de Deus quanto ao que Deus é ou o que Deus faz (ou fez).

O coração que se diz regenerado e não se emociona diante de “Sim eu amo a mensagem da Cruz, ´té morrer eu a vou proclamar…” revela alguém que (1) tem seu coração cristão ainda muito interesseiro para com bênçãos materiais de Deus ou sem apreciar a maravilha da salvação ou (2) talvez nunca foi realmente convertido.

Em Espírito e em verdade é a adoração que nos é dada pelo Espírito, por sua (se me permite a licença teológica) revelação das verdades da Revelação escrita de Deus para o nosso entendimento e coração. Se a grandiosidade de um Deus (Grandioso és Tu…) que, mesmo sendo muito maior do que nós (Tu és Soberano…), se importa conosco e chama esse importar-se de “cruz” (Pela cruz me chamou…) levar você a sentir arrepios, estender seus braços e sentir as lágrimas quentes no seu rosto… tudo bem… lágrimas são para aqui mesmo. Porque “lá” não haverá mais lágrimas na adoração.

Enfim, nosso alvo é o equilíbrio, não os extremos. Uma adoração distante do misticismo e do emocionalismo baratos, mas cheia do místico que vem do Espírito, cheia da razão e da emoção que andam de mãos dadas. Nem carnaval, nem funeral; apenas a santa e reverente festa da qual o nosso Deus é digno. E a qual faz tão bem às nossas almas adoradoras.

Pr. Joversi FerreiraPastor da Comunidade Batista Videira de Roraima (CBV-RR) e teólogo formado pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida (SP). E-mail: prjoversi@cbvideira.com.

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